BOOK_by_Fotuna-600x600

Baú de sentimentos

April 7, 2017 , In: Textos , With: No Comments
0

– Hoje eu guardei a saudade, estava demais para aguentar. – ela murmurou. O pequeno gato preto a encarou com os grandes olhos verdes inquisitórios, da janela onde estava sentado. – Não me olhe assim. Um dia vou tê-la de volta. – a garota retrucou, carrancuda.

Fechou o baú de madeira que tinha em mãos e o encarou por alguns segundos. Quanto tempo será que demoraria para abrir aquele? Passou os dedos pelos corações cuidadosamente entalhados na tampa. Era um sentimento bonito aquele, saudade, mas que doía e a fazia perder o chão. Ela não conseguia encará-lo, não ainda.

Caminhou lentamente até um pequeno armário no canto do quarto e o abriu. Suas prateleiras estavam cheias de baús como o que tinha em mãos. Cada um com um entalhe diferente. Alguns maiores, alguns menores. Colocou o que tinha em mãos numa prateleira alta, quase não a alcançava. Alguns dos baús dali ela já não lembrava mais o que guardavam, essa era a intenção. Um dia os abriria, quando fosse a hora certa, quando estivesse pronta para encarar o que eles mantinham escondido.

Arrastou o dedo indicador pelas prateleiras, procurando um outro baú. Havia chegado a hora dele. – Ah, aqui. – puxou o pequeno objeto, quase podia fechar a mão e escondê-lo entre os dedos. Este possuía um desenho de uma nuvem em sua superfície. Ela sorriu carinhosamente e caminhou até a cama, enquanto abria o baú com cuidado. – Ahh que sono. – disse, ao soltar um grande bocejo. Colocou o objeto no criado mudo ao lado do colchão e deitou-se, sendo seguida pelo gato, que ainda a encarava com aqueles olhos que a perturbavam. – Ainda não é hora de abri-los. – disse. Sentiu-se tola, estava se justificando para um gato. Balançou a cabeça negativamente e deitou-se tranquila, certa de que teria uma noite de sonhos agradáveis. Deixou o sono tomar conta do seu corpo.

– Miauuu. – acordou num susto. O gato miava descontrolado, o chão tremia. Parecia tudo fora de foco. Tentou se sentar, mas a casa balançava demais. Ela então, olhou para o armário de baús. Ele tremia descontrolado, prestes a ceder. – Ah não…! – a menina pulou da cama e correu até a mobília, mas já era tarde. Uma confusão de pequenas caixas de madeira cobriam o chão. Algumas jaziam abertas no azulejo; outras, mais frágeis, se quebraram com o impacto.

O tempo pareceu parar naquele instante. Tudo que estivera guardado por tanto tempo agora estava livre. Saudades, tristeza, angústia, medo, covardia, amor, decepção… O gato miava em algum lugar do cômodo, mas ela já não escutava. Sua cabeça estava cheia, seu coração ainda mais. Tudo que tentara esconder por tanto tempo, todos aqueles sentimentos dos quais ela tentou fugir agora estavam ali encarando-a de frente.

Não estava pronta para aquilo, não ainda. Deixou seu corpo cair sobre os joelhos. Eram tantas emoções, já nem se lembrava que podia sentir tanto. Se ao menos tivesse aproveitado e sofrido elas antes, quando elas chegaram na sua vida… Se não tivesse se escondido e fugido. Sorriu da própria estupidez e deitou-se no chão duro. Não ia mais fugir, ia apenas encarar aquela avalanche de sentimentos, aquela torrente de emoções, como havia de ser.

Só acordou no dia seguinte. O chão parara de tremer. Seu corpo parecia mais pesado. Levantou-se lentamente, o peso daquilo que ela evitara ver era quase insuportável, mas sabia que precisava lutar. Foi até a janela e olhou para o céu, sorriu ao notar algo. – Está mais azul. – tudo parecia mais vivo, constatou ao olhar ao redor. O ambiente que antes parecia monocromático agora tinha cores. Como não havia percebido aquilo? Olhou para o gato, dessa vez seu olhar parecia ser de aprovação. – Agora eu entendo…

Por algum tempo me perguntei como deveria ser meu primeiro post no blog. Cheguei a começar um texto introdutório, mas nada parecia estar bom o suficiente. Foi quando me lembrei deste pequeno conto que escrevi não muito tempo atrás. As vezes o uso para me lembrar de não fugir, de não me esconder, de sempre encarar o que vier.

Tenho mania de guardar tudo pra mim e, embora eu já tenha sido muito pior, isso me prejudica bastante, pois uma hora ou outra a coisa toda explode e tudo vem à tona.

Não sei se vão se identificar com esses sentimentos tanto quanto eu, a vontade de poder guardar suas emoções para só ter de lidar com elas mais tarde, mas eu queria poder mostrar pelo menos um pouquinho de mim e achei que essa seria uma forma interessante.

Espero realmente que gostem desse pequeno conto, sejam bem vindos ao meu mundinho e até o próximo post <3

Lory Fernandes

Lory Fernandes. Soteropolitana, mas suspeita que tenha nascido na cidade errada. Se duvidar, no planeta errado. Designer, aspirante a ilustradora e tem o sonho de se tornar escritora profissional e poder conquistar o mundo com seus personagens. 21 anos de pura teimosia, ciúmes, amor e mágoas superadas.

Sem comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Lory Fernandes

Escritora

Lory Fernandes. Soteropolitana, mas suspeita que tenha nascido na cidade errada. Se duvidar, no planeta errado. Designer, aspirante a ilustradora e tem o sonho de se tornar escritora profissional e poder conquistar o mundo com seus personagens. 21 anos de pura teimosia, ciúmes, amor e mágoas superadas.

Lory Fernandes

Facebook